A Deus, tia Clara

Acabo de receber hoje, 18 de maio de 2026, a triste notícia do falecimento da querida tia Clara, a nossa última tia do lado paterno. Ainda muito jovem, ela buscou realizar-se humanamente entrando para a Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas, em Rodeio. Dotada de destacadas qualidades humanas, especialmente de bela voz, por alguns anos, enriqueceu a Congregação, no afã de evangelizar, característico da carismática obra. A certa altura da sua consagração, decidiu-se pelo caminho individual, e foi exercer a profissão de professora. Não tinha, porém, uma casa própria para morar.

Tia Clara de "anjinho" na 1ª Comunhão da tia Ir. Cremilda.
Tia Clara de “anjinho” na 1ª Comunhão da tia Ir. Cremilda.

Foi, então, que os seus irmãos, meu pai, Gregório, tia Maria, tio Cirineu, Tio Augusto, tio Geraldo, tia Helena, tia Rosália e tio Henrique, uniram-se na compra de terreno e construção da sua moradia em Santa Cecília, SC. Algum tempo depois, não satisfeita com sua vida de professora, mudou-se para uma cidade maior e com mais oportunidades, Jundiaí, no entorno da grande São Paulo, onde já residia a sua irmã, nossa tia Maria, casada com tio José Peron. Lecionou por ali, por certo tempo, e com o sucesso que era costumeiro.

A sua definitiva escolha de vida, então, veio-lhe do contato com o trabalho assistencial desempenhado por uma instituição de Caridade que acolhia crianças abandonadas. Ali, esses pequenos recebiam carinho, educação e eram encaminhados para a vida na sociedade. Nossa tia engajou-se de corpo e alma nesse verdadeiro ideal humano com direcionamento religioso.

Nos últimos dias e momentos da sua vida nesta terra, passou como internada e entubada no hospital de Campo Limpo, SP. Com essa informação triste, mas ao mesmo tempo, coisa normal da existência de todos nós neste mundo, tivemos oportunidade de, assim, nos unirmos ao seu sofrimento, compadecidos, solidários; esperançosos, no entanto. A esperança cristã não conhece o desânimo e a derrota, mesmo diante de morte física. Conhece, sim, a certeza da vitória de Cristo, a ressurreição, à qual todos são destinados!

Tia Clara, religiosa na Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas em Rodeio, SC
Tia Clara, religiosa na Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas em Rodeio, SC

Naqueles dias comemorava a memória de Nossa Senhora de Fátima. E nosso falecido avô paterno, Carlos Kestring, deixou à sua família verdadeiro legado de grande devoção à Mãe de Fátima. Meu saudoso pai, Gregório, de grata memória, contava frequentemente que, à morte desse nosso avô, ele teria tido consoladora experiência com a Mãe Celeste. Ele a teria visto ao lado de seu leito. Pudemos, dessa forma, recomendar também a tia Clara à mesma misericordiosa e socorredora Mãe. Com certeza, a inesquecível benfeitora foi recebida por ela no paraíso.

Nessa intenção continuamos as rezar confiantemente. Pois, como diz a oração mariana “Lembrai-vos”, atribuída a São Bernardo de Claraval (1090-1153), “nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado vossa assistência e reclamado o vosso socorro, fosse por vós desamparado”. Essa oração, a recém-falecida tia, na sua infância, rezou muitas vezes com a “Nonna Gorda”, apelido da nossa saudosa avó paterna, Angelina Veronês. Pois, naquela casa, rezava-se com bastante frequência esta e tantas outras orações inspiradas pela fé católica, ali intensamente vivida.

Pessoalmente, sou deveras agradecido à tia Clara ainda por um motivo muito particular e guardado no coração. Eu estava no Seminário de Azambuja, Brusque, SC, cursando o segundo ano do segundo grau, naqueles tempos, denominado “curso científico” ou “curso colegial”. Certo dia, tive a agradável surpresa da visita dessa amada tia com uma das suas amigas. A tia deu-me a entender que se preocupava comigo e expressou carinhosamente a sua preocupação Talvez baseada na sua experiência de vida recém-laicizada, após os tempos de vivência religiosa, ela me levou a refletir sobre a minha liberdade em fazer a própria escolha pela vida religiosa sacerdotal. E isso me fez muito bem porque não seria normal que um jovem, nos seus dezessete, dezoito anos, não pensasse também no matrimônio. A bem da verdade, esse vital questionamento já vinha bastante forte à minha consciência naqueles tempos. Mas aquela visita da tia Clara, suas considerações, fizeram-me pensar ainda com mais responsabilidade sobre a humana/divina aventura da minha vida. Acabei me tornando sacerdote e, em dezembro desse ano de 2026, celebro o meu jubileu de ouro de ordenação. Assim, dentre tantas pessoas, familiares, amigos, e até desconhecidos e desconhecidas, que me acompanharam com orações, de mil e uma formas, e tantos me acompanham até hoje, guardo, também eu, “eterna gratidão” à tia Clara. Espero, um dia, chamado por Deus Criador e Pai, para a eternidade, poder abraçá-la dizer-lhe: “Obrigado”.

Pe, Raul Kestring – Blumenau, 18 de maio de 2026

Tia Clara, no dia de consagração na Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas em Rodeio, SC, ladeada de nosso saudoso avô paterno Carlos Kestring, e do nosso saudoso pai, Gregório Kestring
Tia Clara, no dia de sua  consagração na Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas em Rodeio, SC, ladeada de nosso saudoso avô paterno Carlos, e do nosso saudoso pai, Gregório.

 

Tia Clara, aquela mulher com a bolsa, com nosso primo e amigo Gabriel, nossa irmã Roseli e uma amiga.
Tia Clara, a mulher com a bolsa, com nosso primo e amigo Gabriel, nossa irmã Roseli e uma amiga.

 

Tia Clara, em sua última visita a Blumenau, após tomar um cafezinho na Padaria Della Nonna
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Tia Clara, com a sua "manguinha", nossa irmã Roseli
Tia Clara, com a sua “manguinha”, nossa querida irmã Roseli

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