O Fim do Mundo na perspectiva cristã
Diversos órgãos de imprensa, no contexto de ameaças de guerras atômicas em que vivemos, estão lembrando Isaac Newton, nascido na Inglaterra no ano de 1643 e ali falecido 1727. Newton era matemático, físico, astrônomo, teólogo e escritor. Com toda essa qualificada inteligência, ele projetou o fim do mundo para o ano de 2060.
Já vimos passar tantos prognósticos do fim do mundo. Eu ouvia de muitas pessoas: “O mundo chegará a dois mil, mas de dois mil não passará!” Ele passou e o mundo não acabou. Vamos, agora, aguardar o ano 2060 para ver se, dessa vez, vai mesmo acabar o mundo.
Ao lado dessa catastrófica profecia, há o relógio do fim do mundo, criado por um grupo de cientistas logo depois da Segunda Guerra Mundial. Consiste num relógio, cujo ponteiro caminha para a meia noite, que seria o momento do apocalíptico fim. Conforme as tensões políticas vão se intensificando, com as cada vez mais potentes armas de guerra, o ponteiro do dramático relógio vai se aproximando da meia noite.
Atualizado, o cronômetro marca, nesses dias, oitenta e nove segundos para o presumido momento fatal. Na mesma lógica, o relógio do fim do mundo pode atrasar o momento da meia noite, quando, sobretudo as potências nucleares desacelerarem as tensões.
Também os evangelhos falam do fim do mundo. O plano de Deus revelado em Jesus Cristo é que, um dia, realmente “passarão o céu e a terra” (Mt 24,35). No entanto, essa questão já era mais do que curiosidade dos apóstolos. Era preocupação. Medo. E perguntaram a Jesus quando isso aconteceria. O Salvador declara ser informação a Ele desconhecida. Aponta que somente ao Eterno Pai sabe o dia e a hora desse dia e dessa hora. Portanto, marcar essa data torna-se atitude descabida , quase infantil, ao ser humano.
Pessoalmente, lembro-me que, ainda garoto, vivi com a minha família e comunidade esse dramático anúncio. Era por volta de 1960, quando as tensões entre Estados Unidos e União Soviética se intensificavam e geravam clima de insegurança e medo. Prognosticava-se iminente a terceira guerra mundial. As armas nucleares já eram realidade. Nagazaki e Hiroschima o testemunhavam. Convencionou-se, assim, naquela época, considerar o tempo do fim do mundo. Recordo-me que se temia supostos três dias de total escuridão em todo o planeta. Isso precederia o fim. Muita gente, por aqueles dias acorreram aos mercados comprar o maior número de velas possível. Outros se atarefaram a fabricar montes de velas de cera de abelha. Mas passaram-se os dias, os meses e os anos e o mundo continuou a existir.
É evidente que o nosso tempo, de avançada Inteligência Artificial, favorece sofisticadas armas de guerra, inclusive no âmbito espacial. Dessa forma, a desconfiança e o medo de uma hecatombe terrestre e, sabe lá, que dimensões alcançaria, faz aumentar a possibilidade de o próprio ser humano autodestruir-se. É o Papa Francisco quem adverte claramente os poderosos e toda humanidade desse perigo.
Penso que, diante do exposto, nos agarramos aos evangelhos. Quando falam do fim do mundo, ressaltam duas sábias atitudes. A primeira é a confiança em Deus. A pessoa de fé, logicamente, será também envolvida no contexto dos últimos dias. Mas, textualmente, refere Mateus: “Nem um só fio de cabelo cairá da vossa cabeça sem a vontade do vosso Pai” (Lc 21,18). Isto é, o Pai do céu continuará cuidando amorosa e misericordiosamente dos seus filhos e filhas! Como a criança que navega com o seu pai, em mar revolto: ela fica tranquila porque confia plenamente que tudo andará bem.
A segunda atitude que encontramos em Lucas, logo no versículo seguinte ao da confiança em situação de grave ameaça, é recomendação à perseverança. “É pela perseverança que conseguireis salvar a vossa vida” (Lc 21,19). Observa-se que, muitas vezes, pessoas em situações desafiadoras, não se rendem às ameaças, perigos, doenças. De alguma forma, elas reagem, perseveram na luta pela vida. Agarram-se à oração, à fé, à esperança, ao pouco que podem fazer para subsistir, e superam com certo heroísmo aquela difícil passagem da sua vida. Pois a fé nos garante: “ A Deus nada é impossível” (Lc 1,37).
Enfim, o livro do Apocalipse traz uma verdade que lemos também nos profetas do Primeiro Testamento e que traz conforto e paz à alma do discípulo e da discípula de Jesus. É a certeza de que não haverá destruição, mas tudo será transformado. “Vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram” (Ap 21,1), reza o Apocalipse. Na liturgia de exéquias, proclama-se um belo texto da Carta de São Paulo, alusivo à ressurreição: “Eis que vos digo um mistério: na verdade, nem todos morreremos, mas todos seremos transformados” (1Cor 15,51). Portanto, existirá novo céu e nova terra que inclui a inalienável colaboração dos filhos e filas de Deus, em vista da ressurreição à imagem de Jesus Cristo Ressuscitado.
Importa, sim, desde agora, realizarmos atos que indiquem a nossa conversão. Conversão no amor a Deus, Criador e Pai e no amor aos irmãos, definidos por Jesus como os dois mandamentos fundamentais do cristão e da cristã. Conversão no amor a si mesmo, como nos revela o Senhor: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22,39). E conversão no amor à criação de Deus, um mandamento que remonta ao Gênesis, perpassa o Segundo Testamento e, nos dias atuais, é retomado fortemente pelo Papa Francisco, sobretudo em sua Encíclica “Laudato Sì” (2015).
Pe. Raul Kestring – Blumenau, 21 de fevereiro de 2025